Para saber desta guerra que, para efeito de estudos, divide-se em três momentos, de fanatismo, de banditismo e de genocídio, faz-se necessário conhecer alguns antecedentes e precedentes.
*Questão de Limites.
Desde a formação do Império Brasileiro, as províncias de São Paulo e Santa Catarina não conheciam seus limites. Em 1853, com a criação da Província do Paraná, desmembrada de São Paulo, abriu-se o debate sobre a linha limítrofe, discussão que passou a ser mais acirrada entre as duas unidades da federação após a Proclamação da República.
A questão envolvia o chamado "Território Contestado", localizado entre osrios Iguaçu (Norte) e Uruguai (Sul), da Serra Geral (Leste) até a fronteira com a Argentina (Oeste), na época sob administração paranaense.
Enquando as partes discutiam fórmulas para resolver o assunto, o Império havia decidido em 1879 que, provisoriamente, caberia ao Paraná administrar as terras a Oeste do Rio do Peixe. Em 1900, o Governo de Santa Catarina impetrou ação judicial contra o Estado do Paraná no Supremo Tribunal Federal, reclamando direitos sobre todo o território.
Em 1904, a Corte manifestou-se oficialmente pró-Santa Catarina, decisão que foi confirmada em 1909 e ratificada em 1910, determinando que os paranaenses entregassem a administração das terras aos catarinenses.
O Governo do Paraná, apoiado peloa população, rebelou-se e não aceitou a decisão, com o que criou um impasse jurídico-administrativo no País, enquanto Santa Catarina ficou na expectativa.
Na disputa por limites, envolvendo questões de posse de terras e exploração de ervais, três confrontos importantes antecederam a Guerra do Contestado.
- O Primeiro: em Dezembro de 1905 e em Janeiro de 1906, na Vila Nova do Timbó, Demétrio Ramos, ex-maragato, primo do governador catarinense Vidal Ramos Júnior, depois de se desentender com seu antigo desafeto Capitão Fabrício Vieira, ex-pica-pau, reuniu 600 homens e, por duas oportunidades, enfrentou a força policial do Paraná e um destacamento do Exército.
- O Segundo: em Setembro de 1909, o ex-maragato e catarinense Coronel Aleixo Gonçalves de Lima, à frente de 500 homens da Guarda Nacional, invadiu uma área que o Paraná dizia ser sua na Estrada Dona Francisca, afugentando a força policial paranaense que protegia uma barreira de impostos próxima a São Bento. A reação foi imediata, mas Aleixo retirou-se e entrou em Joinville como vitorioso, irritando o Governo do Paraná.
- O Terceiro: em Outubro de 1912 o Governo do Paraná entendeu como invasão catarinense a presença de um grupo civil que protegia o retirante de Taquaruçu, monge José Maria em São João do Irani e mandou o Regimento de Sgurança para enfrentá-lo, o que aconeceu no Combate do Banhado Grande.
*Estrada de Ferro.
Durante a questão de limites, em 1906, no interior nas terras contestadas, entre os rios Iguaçu e Uruguai, marginais ao Rio do Peixe, começou a ser constituído um trecho de 372Km da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, para efetuar a ligação entre Itararé (SP) e Santa Maria (RS). Ao mesmo tempo, desde 1911, estava em andamento na região a construção de outro trecho, entre o porto de São Francisco do Sul e Porto União da Vitória (No Rio Iguaçu), parte de uma projetada ferrovia que demandaria até Assunção, no Paraguai.
Estes trechos, com obras vagarosas até 1908, foram incorporados pelo truste norte-americano Percival Farquhar, que comprou a concessão federal e havia constituído a Holding Brazil Railway Company. Em pagamento, além da garantia de juros pelo capital investido, a Companhia Estrada de Ferro SP-RS, que rasgou o Contestado com os trilhos - em forma de cruz - de 1908 a Dezembro de 1910, teve o direito de receber terras devolutas, destinadas à colonização com imigrantes, revoltando população sertaneja local, que ficou impedida de requerer posse. Para piorar o quadro, milhares de trabalhadores trazidos de várias partes do país pela empresa, despedidos das obras entre 1911 e 1912, se embrenharam no sertão.
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