A Guerra do Contestado - Parte III

quinta-feira, 7 de maio de 2009

*Lumber Company.

Atraído pela riqueza florestal da região contestada, cortada vertical e horizontalmente pelas rodovias, o mesmo Sindicato Farquhar tratou de promover a instalação de uma serraria monumental, a Southern Brazil Lumber & Colonization, com a primeira unidade em Calmon (1908) e, logo depois, em Três Barras (1912).

De paranaenses, a empresa adquiriu milhares de hectares de terras, cobertas pela Floresta da Araucária, utilizando métodos que foram considerados fraudulentos, pois, parte dos títulos expedidos pelo Paraná continham registros em duplicata em Santa Catarina, isso porque ambos transferiam imóveis como terrenos devolutos a fazendeiros-coronéis, políticos que usufruíam as benesses do poder em cada Estado.

Já em 1911, na região de Canoinhas, pela perda de terras, revoltaram-se, o ex-maragato Major Aleixo Gonçalves de Lima, mais Bonifácio José dos Santos, o "Papudo" e Antonio Tavares Júnior, catarinense legítimos, todos desafetos dos pró-paranaenses primos Thomas e Fabrício Vieira, criando confusões armadas. Com seu Corpo de Segurança, fortemente municiado, contratando apenas imigrantes como seus trabalhadores, a partir de 1912 a Lumber começou a investir contra a população sertaneja habitante no interior das matas, expulsando-a-e, com isso, atraindo a ira cabocla, também revoltada pelo abate indiscriminado dos pinheiros centenários.

*Messianismo e Misticismo.

A maioria da população da Região do Contestado era formada por uma população cabocla, pobre e inculta, de índios, negros e luso-brasileiros que, ao longo dos anos, havia se internado nos sertões e nos campos e vivia do cultivo de roças, criação de porcos selvagens, extração da erva-mate, tropeirismo de carga e trabalhava nas fazendas de criação de gado como peões ou agregados.

A forte ascendência portuguesa dos cablocos abrigava a crença importada do sebastianismo lusitano. Assim, a população revelava expressões de messianismo e de muito misticismo. Diante da ausência praticamente total da Igreja Católica, os sertanejos buscaram conforto espiritual nos monges, profetas, curandeiros, pregadores e eremitas, que peregrinavam pela região, dentre eles destacando-se dois, de nomes João Maria de Agostinho e João Maria de Jesus.

Quando os monges, confundidos como um só na figura imaginária de São João Maria, desapareceram, surgiu outro, Miguel Lucena de Boaventura, que adotou o nome de José Maria, o qual, depois de sair de Palmas, no Paraná, chegou à região de Taquaruçu, em Santa Catarina, onde foi acolhido como irmão de João Maria e tido com "novo monge". O superintendente de Curitibanos, Francisco Ferreira de Albuquerque, sentindo ameaçada sua autoridade, anunciou retaliação, com o que José Maria decidiu regressar ao Irani, nos campos-de-baixo de Palmas, acompanhado por escolta popular.

*Combate do Irani.

O Paraná, que dava proteção ao Sindicato Farquhar, protegia todas as terras na área do vale do Timbó e a Oeste do Rio do Peixe, que estavam sob sua administração. Mesmo assim, não conseguiu impedir a instalação de alguns posseiros, na maioria ex-maragatos riograndenses, como os Fragoso e os Fabrício das Neves, nos campos do Irani. Ali, um gupo econômico paulista, ligado a Farquhar, que havia adquirido a Fazenda Irani com a intenção de instalar a Companhia Frigorífica e Pastoril, desistiu do plano e revendeu o imóvel a figuras paranaenses importantes.

Em Outubro de 1912, um pequeno grupo de catarinenses, que havia acampado em Taquaruçu e ali formado um "quadro-santo", acompanhando o curandeiro José Maria, ao ser expulso pelo Superintendente de Curitibanos, atravessou o Rio do Peixe, refugiando-se no povoado de São João do Irani. Com o acirramento das tensões na questão de limites e intrigas por terras, a atitude foi considerada como uma invasão de catarinenses, merecedora de retaliação armada.

O Paraná enviou à área uma expressiva força do seu Regimento de Segurança para expulsar os pseudo-invasores, vindo a combater com os defensores de José Maria no Banhado Grande, resultando na morte do curandeiro e do comandante militar, além de dezenas de envolvidos, o que provocou grande consternação em Curitiba.

*Descaso Governamental.

As oligarquias que se consolidaram já nos primeiros tempos da República Velha, enquanto no poder, desleixavam em relação ao Território Contestado, permitindo que, aos homens bons que aqui se instalavam, sem controle, misturassem-se aventureiros, pessoas de má índole, perversas, desqualificadas social e moralmente.

As riquezas naturais da Região do Contestado só foram percebidas pelo palácio florianopolitano depois que a estrada-de-ferro rasgou o território, depois que a madeireira Lumber iniciou a devastação da Floresta da Araucária, depois que enxergou o quanto o Paraná arrecadava com impostos sobre os ervais nativos e depois que constatou que, se houvesse um plesbecito, a população optaria pelo Estado-presente, o Paraná, e pelo Governo-presente, o paranaense.

Os valores humanos desta região só foram percebidos quando já era tarde demais. Ao invés de acolher, assistir, proteger e animar o Homem do Contestado, tratando-o como catarinense legítimo, como um desbravador, desprezou-o, preferindo ouvir os coronéis-de-roça e os chefetes-de-aldeia que sustentavam a oligarquia às custas da pobre gente cabesteada.

Percebe-se que os discursos veiculados pela imprensa nacional e dos estados contribuiram, de alguma forma, para consolidar a imagem do sertanejo como um mestiço inferior, através de suas características de fanático e criminoso, dos militares como bravos guerreiros e dos grandes proprietários de terras como vítimas do conflito social que envolveu o homem do campo. Assim, ignoradas questões de ordem social, política e econômica, o movimento do Contestado foi lançado na história oficial a partir do pensamento das elites intelectuais dominantes, que apenas retrata um modo de pensar "branco", a visão dos militares e o coronelismo da época. Esta mesma inha de pensamento teve sequência na História pelos oficiais de um caboclo inculto, selvagem, bárbaro, fanático, desamparado, analfabeto, bandido, criminoso, bandoleiro, terminologia de prensença constante na imprensa, quase que simultaneamente passou para as obras dos oficiais do Exército.

*Nacionalismo e Militarismo.

A Guerra do Contestado aconteceu num momento em que começava a criar raízes no Brasil a Liga de Defesa Nacional e a Campanha do Serviço Militar, anunciadas futuras instituições que só sensibilizariam a população, se fosse fortalecido o Exército Brasileiro.

Ao lado dos militares, muitas pessoas desempenharam este tipo de apostolado cívico, pró-cidadania, pró-patriotismo, pró-Exército. Na sua gestão 1914-1918, Wenceslau Braz impôs sua liderança à Nação. Para cativar os militaresm utilizou todo o seu prestígio para restaurar o comando presidencial sobre as Forças Armadas. Então, deu continuidade ao programa de profissionalização do alistamento militar, que havia sido iniciado em 1908 pelo Marechal Hermes da Fonseca, ainda quando Ministro da Guerra, mas que não pôde conduzi-lo enquanto Presidente, devido ao caos político reinante.

Em 1914, no tempo que precedeu a I Guerra Mundial, os brasileiros tinham desviadas suas atenções sobre os problemas sociais e políticos internos, para o entusiasmo pelo militarismo, patriotismo e nacionalismo.

O movimento cívico-patriótico brasileiro, que viria a se intensificar a partir de 1917, canalizou-se na Liga de Defesa Naconal, com a entrada do Brasil na Guerra, em Outubro deste ano. Coincidindo com o final da intervenção direta do Exértico Brasileiro na Guerra do Contestado, Olavo Bilac expunha seu pensamento sobre o momento histórico da consciência nacional naqueles anos. Aderindo à conclamação pelo serviço militar obrigatório no Brasil, Bilac denunciava a falta de patriotismo, pregando que a Nação só se ergueria com um Exército Forte.

As palavras de Olavo Bilac, também criticando as elites políticas brasileiras, aplaudidas pelos militares, servem para justificar - entre outras justificativas - porque as operações de forças do Exército Brasileiro eram sobejamente destacadas e valorizadas pela imprensa (nacionalista e patriótica) e porque as intervenções de seus oficiais (heróis nacionais) ganhavam brilho em todas as páginas, como aconteceu durante e depois da Guerra do Contestado.

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