A Guerra do Contestado - Parte I

quinta-feira, 7 de maio de 2009

*Introdução.

No Meio-Oeste, Planalto Central e Norte de Santa Catarina, entre os vales dos rios Canoinhas (Leste) e do Peixe (Oeste), com os rios Negro e Iguaçu ao Norte e o Rio Canoas e Campos Novos ao Sul, localiza-se a área que entre 1913 e 1916 foi cenário da Guerra do Contestado e, por isso, historicamente é identificada como Região do Contestado.

Faz parte de área maior, que antigamente se estendia ao Extremo-Oeste, na fronteira com a Argentina (Atuais Oeste Catarinense e Sudoeste Paranaense), que constituia o Território Contestado, assim conhecido até 1917, quando da solução da questão de limites entre Paraná e Santa Catarina.

A linha da foz do Rio Canoinhas (No Rio Negro) às suas nascentes e destas às nascentes do Rio do Peixe até sua foz (No Rio Uruguai) passou a ser considerada como "fronteira provisória" entre os estados litigantes em 1879. No final do século passado e início deste, o Paraná administrou e promoveu a ocupação das terras do Planalto Norte e da margem direita do Rio do Peixe, pelos municípios de Rio Negro, Porto União da Vitória, Três Barras. Itaiópolis e Palmas, e Santa Catarina as terras da margem esquerda, pelos municípios de Lages, Curitibanos e Campos Novos, depois também Canoinhas.

Dentro da Floresta da Araucária, a região era praticamente desabitada, com suas vilas, povoados e fazendas, ligados entre si por estreitos e sinuosos caminhos, abertos pelos tropeiros. Estendida como "geração cabloca", parte da população havia chegado na primeira metade do século passado, num processo de ocupação de terras livres e, outra parte, chegou após 1850, quando a Lei das Terras viabilizou sua instalação em pequenas e médias propriedades, contrastando com o modelo anterior de sesmarias, que havia permitido o surgimento de grandes fazendas.

Os criadores e lavradores luso-brasileiros vindos tanto de São Paulo e do Paraná, como do Rio Grande do Sul, mesclaram-se com os nativos índios Kaigang e Xokleng e com aqueles que haviam chegado antes, os negros escravos, os mamelucos (Mescla do branco com o índio), os cafusos (Cruzamento do branco com o índio), e os mulatos (Mescla de branco com o negro).

Neste época, chegaram também os primeiros eslavos, como resultado dos planos governamentais de imigração, principalmente alemães, holandeses, poloneses e ucranianos.
Distante das suas duas "capitais" - Florianópolis de um lado e Curitiba do outro - a região teve vagaroso ritmo de desenvolvimento.

Tanto no Contestado-Catarinense como no Contestado-Paranaense o povo vivia em solidão, longe dos recursos que a modernindade proporcionava às pessoas dos centros maiores. As estradas não passavam de trilhas abertas a facão nas matas. A população não dispunha de pronto atendimento médico, odontológico, farmacêutico ou hospitalar. As escolas primárias eram raras. A autoridade era exercida por superintendentes municipais, juízes-da-paz, delegados de polícia e pelos fazendeiros-coronéis.

A Igreja mantinha paróquias nas únicas cidades catarinenses existentes no início do século - Lages, Curitibanos, Campos Nonos e Canoinhas - e nas paranaenses de Palmas, Rio Negro e Porto União da Vitória, com poucos padres atendendo os fiéis em demoradas viagens pelos sertões, sendo que, neste quadro, despontaram na região pessoas " diferentes", peregrinas e eremitas, consideradas "monges" pela população regional, algumas delas por se exercitarem como pregadores e curandeirasm, outras por se apresentarem como profetas, visionárias, charlatões ou fanáticas, enraizando nos cablocos uma forma de religião popular.

As principais atividades econômicas resumiam-se em: extensão da erva-mate, tropeirismo, lavouras de subsistência, criação de gado bovino e de suínos. Não existiam indústrias. O comércio restringia-se a pequenas "bodegas" nas margens de algumas estradas. Este quadro não começou a se reverter a partir da abertura da EFSPRG, em 1910, como alguns podem pensar, mas, sim, após 1917, quando terminou a Guerra do Contestado e foi homologado o Acordo de Limites PR-SC, quando então a Cia. Estrada de Ferro iniciou as tentativas de implantação dos planos de colonização nas terras marginais aos trilhos e quando a Lumber Company entrou em plena operação.

É neste cenário que insere-se a Guerra do Contestado...

Aproximadamente 6 000 pessoas foram mortas no sertão do Estado de Santa Catarina, entre Dezembro de 1913 e Janeiro de 1916. Após quase três anos conflituosos, cerca de 9 000 militares e civis, entre mortos, feridos, desaparecidos, deram baixa nos campos de batalha de Guerra do Contestado, um dos mais sangrentos episódios da História do Brasil, que manchou com sangue uma área de 15 000 Km, então habitada por menos de 50 000 pessoas.

No auge do conflito, entre o final de 1914 e o início de 1915, estavam em ação 8 000 militares, sendo 7 000 soldados das armas da Infataria, Cavalaria, Artilharia e Engenharia do Exército Brasileiro, do Regimento de Segurança do Paraná, do Regimento de Segurança de Santa Catarina, mais de 1 000 civis regionais contratados pela União. O inimigo: Exército Encantado de São Sebastião, informal, com 10 000 combatentes, entre homens, mulheres, idosos e crianças, na maioria cablocos luso-brasileiros, armados com revólveres, espingardas e facões.

A Guerra do Contestado foi o evento bélico mais importante da História de Santa Catarina, envolvendo a população sertaneja de um lado e forças militares nacionais e estaduais do outro. O evento, que aconteceu em terras administradas por Santa Catarina e leste do Rio do Peixe, é definido por estudiosos como "insurreição xucra" ou "guerra civil"; para religiosos, ocorreu uma "rebelião de fanáticos"; para sociólogos, houve um "conflito social"; para antropólogos, foi um "movimento messiânico"; para políticos, uma tentativa de desestabilização das oligarquias; para administradores públicos, aconteceu uma "questão de limites"; para socialistas, aconteceu uma "luta pela terra".

Entretanto, para historiadores regionais da atualidade, a Guerra do Contestado foi tudo isso simultaneamente. A formatação histórica do Contestado é ímpar. Não há uma motivação única, com início, meio e fim, para concretizar o fato. Neste proposição, transcorridos 90 anos, o evento é entendido como a insurreição do sertanejo catarinense, provocada pelo avanço do capitalismo na região, influenciada pela construção da ferrovia, pela ação danosa da madeireira Lumber Company, pela questão de limites entre Paraná e Santa Catarina, pelo jogo de interesses entre fazendeiros e políticos, pelo misticismo que havia entre os cablocos, pela estratificação social e sistemas de vida da época, pela posse da terra, pelo messianismo e pela índole guerreira dos sertanejos.

Como evento complexo, tem-se que este conflito eclodiu coincidentemente em tempo e espaço, na junção de motivações sociais, econômicas, políticas, religiosas e culturais, não podendo mais ser analisado e discutido sob um único prisma ou tomado isoladamente por apenas um destes fatores.

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